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Archive for abril \19\UTC 2012

Manifestações contra a construção da barragem de Panambi aconteceu no domingo do lado argentino, tendo a presença de  brasileiros, entre eles o prefeito de Porto Mauá.

Por Vilson Winkler (ijui.com)

No domingo, 15 de abril de 2012, às 11 h da manhã, na Argentina, no Porto Comunitário de Três Bocas, houve uma concentração de mais de 100 manifestantes contrários à construção das barragens de Panambi e Garabi no rio Uruguai.

Às 13h, estes se deslocaram com canoas e barcos até o porto de Alba Posse, defronte a Porto Mauá (Brasil), realizando um percurso de 6 km de extensão.

Em Alba Posse, ocorreu ato de manifestação em prol da defesa do rio Uruguai vivo.

Esta manifestação tinha também como objetivo protestar contra a alteração do regime de águas do caudaloso rio. Na semana passada o Uruguai praticamente foi secado em parte pela estiagem, mas principalmente pela retenção das águas nas barragens de Foz do Rio Chapecó e Itá.

Neste evento havia a presença de mais de 500 pessoas, sendo mais de 20 brasileiros, inclusive o Prefeito  Guerino Pedro Pisoni, de Porto Mauá.

A construção da barragem de Panambi causará o maior impacto social e ambiental justamente a estes dois municípios fronteiriços.

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Conjuntura semanal do IHU online:

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das “Notícias do Dia’ publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, com sede em Curitiba-PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro doIHU na elaboração das Notícias do Dia.

Eis a análise.

O mundo é cada vez mais voraz, insaciável e sedento por energia. O Brasil não foge à regra. É nesse contexto que se deve compreender a fala da presidente Dilma Rousseff na semana passada ao afirmar que não se pode discutir “fantasias” na área energética. O recado da presidenta foi dado aos movimentos sociais que criticam a proliferação de hidrelétricas. Para os movimentos, entretanto, a crítica da presidenta é conservadora, presa à sociedade industrial, de quem não percebe que é possível apostar e investir em matrizes alternativas e inovadoras.

A crítica de Dilma: ‘Não dá para discutir a fantasia’

Faz poucos dias, a presidenta Dilma Rousseff mandou um recado aos que contestam o modelo energético brasileiro. A presidenta disse que pessoas contrárias à construção das hidrelétricas na Amazônia vivem num estado de “fantasia”. Segundo a presidenta, “ninguém numa conferência dessas [Rio+20] aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço para a fantasia. Não estou falando da utopia, essa pode ter, estou falando da fantasia”, afirmou Dilma.

A fala de Dilma foi uma resposta ao pronunciamento dos movimentos sociais que acusam o governo de promover um retrocesso na agenda ambiental. No passivo ambiental se encontram a flexibilização do Código Florestal, a construção de grandes hidrelétricas nos rios MadeiraXinguTapajósTeles Pires e, agora, Araguaia na região da grande Amazônia e uma série de outros temas destacados em Carta escrita por diversas organizações da sociedade civil alertando a sociedade brasileira sobre retrocessos constatados na área socioambiental.

Faz tempo, parte do movimento social brasileiro – movimento ambientalista, pastorais sociais, movimento indigenista e até mesmo o MST – critica a forma como o governo trata a agenda socioambiental.

Por um lado, dizem esses movimentos, a agenda ambiental se tornou secundária junto ao governo e nos grandes embates e conflitos travados entre os setores conservadores e progressistas (ruralistas x movimentos sociais), o governo apenas arbitra e não toma posição clara, vide o caso do Código Florestal. O governo trata o tema ambiental com certo aborrecimento, algo que lhe cria problemas e divide a sua base de apoio política. Trata-se de uma agenda negativa. O governo apenas reage e não é proativo.

Por outro lado, segundo os mesmos movimentos sociais, a raiz das tensões dos conflitos ambientais está no modelo neodesenvolvimentista que se assenta nas bases produtivista e consumista. É nessa perspectiva que se compreende os pesados investimentos nas matrizes energéticas fósseis, nuclear, hidrelétricas e biocombustíveis.

Dilma diz que como presidenta, tem de explicar como as pessoas vão comer, ter acesso à água e energia. “Eu não posso falar: ‘Olha, é possível só com eólica iluminar o planeta.’ Não é. Só com solar? De maneira nenhuma”.  A “fantasia” dos movimentos sociais a que se refere a presidenta, é que os mesmos só sabem criticar e isso é posição de quem não tem o compromisso e a preocupação com a realidade de administrar um país com toda a complexidade que exige.

Na cabeça de Dilma, o não investimento nas hidrelétricas e daí a obsessão por Belo Monte, tratada como “decisão do Estado”, é o risco do país parar mais à frente. As críticas às hidrelétricas são respondidas com o fantasma do “apagão” ou a opção, ainda pior, de se investir mais em termoelétricas e em energia nuclear. A decisão do governo deleiloar usinas na Amazônia é de que o país precisa agregar de 3.000 a 4.000 MW por ano na oferta de energia sob o risco de colapsar mais à frente.

Nesse sentido, os movimentos sociais que criticam as matrizes energéticas centralizadoras e poluidoras (fósseis), perigosas (nuclear) ou devastadoras do meio ambiente (hidrelétricas) são vistos como ingênuos e descomprometidos com o Brasil real, aquela que já é a 6ª economia, não pode parar e para tanto precisa de mais e mais energia.

Olhando a partir dessa lógica, as posições da presidente são coerentes. Para ela “não é com vento” [palavras suas] – energia eólica – que vamos dar conta da demanda crescente por energia.  No Brasil, particularmente, a crescente demanda por energia está associada ao crescimento econômico, ao aumento do poder aquisitivo da população que vem aumentado o seu padrão de consumo, seja através da compra de carros, aparelhos eletrodomésticos e viagens.

Uma crítica conservadora

Os países em todo o planeta perseguem obsessivamente o aumento da geração de energia para dar conta da crescente demanda da produção e do consumo. A crise energética não é um problema brasileiro, ela se coloca como um dos temas centrais da agenda mundial e está intimamente ligada às crises climática, alimentar e mesmo financeira.

O fato incontestável é que o mundo é cada vez mais voraz, insaciável e sedento por energia. Essa obsessão, entretanto, apresenta graves implicações para o conjunto da sociedade. Levado às últimas consequências, a exploração sem limites dos recursos naturais para suprir as demandas por energia pode levar o planeta a um impasse. Já é conhecida a equação de que crescimento infinito com recursos finitos não fecha. Não se pode querer crescer infinitamente quando se sabe que os recursos são finitos.

É aqui que entra a contribuição do movimento social taxado muitas vezes de ingênuo e fantasioso. É o movimento social, parte dele, que chama a atenção para esse impasse, para a insanidade da exploração sem limites num planeta que já apresenta sinais de exaustões.

É necessário e está na hora de enfrentar o problema das matrizes energéticas. As críticas ao programa nuclear, à proliferação de hidrelétricas com todas suas implicações ambientais e sociais, ao programa do etanol, ao pré-sal não podem ser simplesmente desqualificadas com o argumento do descompromisso com o “real”.

Tratam-se de críticas pertinentes que procuram olhar o Brasil para mais além do imediato. Os movimentos – não são todos – que criticam o modelo neodesenvolvimentista não são ingênuos, tem consciência de que a curto prazo não se pode escapar das opções energéticas que aí estão, entretanto, cumprem o importante papel de alertar e chamar a atenção para o fato de que existem alternativas.

A desqualificação que Dilma faz das energias solar e eólica não contribuem para o debate, é uma crítica conservadora, uma visão presa à sociedade industrial, de quem não percebe que é possível e importante apostar e investir em matrizes inovadoras. É esse fato que irrita os movimentos ambientalistas. O governo brasileiro com toda a potencialidade que possui na área energética coloca-se de costas para as experiências alternativas. Não investe e não aposta naquilo que poderá ser o futuro em matéria de matrizes energéticas.

Matrizes alternativas. Fantasia ou ousadia?

“Fantasia é fazer de conta que não há limites”, alerta Aron Belinky, coordenador de processos internacionais doInstituto Vitae Civilis. Segundo ele – que já concedeu entrevista ao IHU – priorizar a sustentabilidade “não é uma questão de fantasia, mas de ousadia”.

Aron Belinky argumenta que o modelo de desenvolvimento do governo Dilma Rousseff carece de visão de longo prazo: “É um modelo que simplesmente reproduz o que já foi feito no passado, fazendo de conta que não há limites para o planeta. Isso sim é uma fantasia”.  Para ele, “o Brasil tem uma oportunidade estratégica de se desenvolver num padrão novo de sustentabilidade, integrando o desenvolvimento econômico, social e ambiental num só modelo”.

Com relação às hidrelétricas, Belinky disse que é preciso priorizar, também, medidas de eficiência energética, que permitam usar de maneira mais eficiente a eletricidade que já é produzida – diminuindo, assim, a necessidade de grandes obras na Amazônia, que, apesar de produzirem uma energia de baixo carbono, têm grandes impactos sobre a biodiversidade e as comunidades tradicionais da floresta: “Há várias inovações que podem ser incorporadas ao sistema de produção de energia sem a necessidade de grandes obras”.

O jornalista e ambientalista Washington Novaes lamenta a fala da presidenta: “Pena que num momento como este nossa presidente da República atribua a ‘fantasias’ as críticas de vários setores à construção de hidrelétricas como Belo Monte e outras amazônicas e diga que essas elucubrações distantes da realidade não serão discutidas na Rio+20”. Segundo ele, “não há outro caminho” frente ao impasse da crise climática a não ser perseguir investimentos em matrizes energéticas alternativas.

Outra voz discordante à fala de Dilma de desqualificação às energias eólica e solar é do assessor do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, Ivo Poletto. Diz ele: “Permito-me discordar frontalmente da presidente, e o faço como eleitor que ajudou a confiar-lhe a responsabilidade da Presidência, e como pessoa que estuda essa questão da energia tendo presentes os desafios que a Terra e todos os seres vivos enfrentam na atualidade, desafios que se agravarão muito se forem mantidas as atuais fontes de geração de energia elétrica, e mais ainda se aumentar o consumo desta energia para favorecer iniciativas de produção de commodities que visam exclusivamente o aumento de lucros”.

Para Poletto, “enquanto em muitas partes do mundo se avança na substituição das energias poluidoras por energia solar e eólica, no Brasil teima-se em continuar acomodados no uso do que resta de rios e córregos, construindo barragens que, comprovadamente, colocam em risco tudo que caracteriza os próprios rios, expulsam povos e comunidades ribeirinhas, destroem florestas, cobrem vales e geram quantidades imensas de metano, um gás que provoca mais aquecimento da atmosfera do que o dióxido de carbono”.

Na opinião do jornalista e ambientalista, Sérgio Abranches, as críticas de Dilma Rousseff caracterizando como fantasia o uso extensivo de energia solar e eólica não procedem. Segundo ele, os EUA, um país refratário ao discurso das mudanças climáticas, vem dando fortes incentivos para energia solar fotovoltaica e eólica e que as mesmas dão retorno social, na forma de novos empregos de qualidade, e econômico, propiciando ganhos financeiros e estimulando amplas parcelas do setor produtivo.

Energias alternativas já são uma realidade no Brasil

A ideia da inviabilidade da energia eólica e solar já não se sustenta. O Brasil, mesmo e apesar da descrença do governo brasileiro, é uma prova disso. A energia eólica vem crescendo no Brasil, apesar do ceticismo do governo. “As críticas de Dilma só reforçam a necessidade de desmistificar a concepção de que só teremos luz em nossas casas se construirmos grandes hidrelétricas, como Belo Monte”, afirma Sérgio Leitão, Diretor de Campanhas doGreenpeace Brasil. O Brasil tem potencial para ser o primeiro país a ter toda a sua matriz energética proveniente de fontes renováveis e limpas e deve dar o exemplo de que desenvolvimento sustentável é possível, afirma ele.

O parque elétrico brasileiro é majoritariamente hidrelétrico e a energia gerada por hidrelétricas corresponde a mais de 80% de toda a matriz elétrica do país, o que não significa que este seja o melhor modelo de produção de energia. “Esse modelo de obras faraônicas causa profundos impactos socioambientais e precisa ser abandonado”, disseLeitão. Só o potencial de energia dos ventos, de acordo com o Ministério de Minas e Energia, é de 143 Gigawatts, o equivalente à produção de dez Itaipus.

As energias alternativas já são uma realidade no Brasil. Projetos e investimentos desmentem a noção de que as fontes eólica e solar são ‘fantasias’ ou que ainda estão longe de serem competitivas, dando a esperança de que é possível uma geração mais diversificada e sustentável. “Existe muito forte no governo, e até na academia, um apego pelas energias tradicionais, seja por ideologia ou por interesses econômicos. Isso de certa forma impede uma renovação de conceitos e fatos”, diz  Mauro Passos, presidente do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas da América Latina (IDEAL).

Segundo ele, o Brasil vive no momento um boom de investimentos eólicos. A capacidade instalada passou de 22 MW em 2003 para 1.509 MW em 2011, com a previsão de alcançar 8.088 MW em 2016. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a eólica já é a segunda fonte de energia mais competitiva no país, perdendo somente para a hidrelétrica. Além disso, o Brasil pode passar a ocupar em 2013 a décima posição entre os maiores produtores de energia eólica do mundo.

O Brasil já é 10º em ranking de investimentos em renováveis. Apesar de a presidente ter colocado as energias renováveis, em seu discurso sobre a Rio+20 na semana passada, no contexto das “fantasias”, cada vez mais pesquisas revelam que o Brasil tem potencial para crescer como um gigante da energia limpa. De acordo com relatório da Pew Charitable Trusts, baseado nos dados da Bloomberg New Energy Finance, o Brasil ficou em 10º lugar em um ranking de investimentos em energia renováveis do G20 em 2011, chegando a US$ 8 bilhões no total.

O mercado está à frente da visão política, já percebeu que é um nicho que vem crescendo. Por outro lado, destaca-se a notícia que dá conta de que apesar dos resultados surpreendentes obtidos nos últimos leilões de energia, que levarão a investimentos de R$ 16 bilhões até 2016, os projetos eólicos se deparam com uma produção abaixo do esperado.

Proliferação de hidrelétricas e de problemas

Na mesma semana em que a presidenta Dilma criticava os que questionam a construção das hidrelétricas, uma série de notícias dava conta de múltiplos problemas envolvendo a construção das mesmas.

Segundo relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel, vinte e duas das 27 hidrelétricas em construção estão atrasadas. Das 27 hidrelétricas, 13 não tiveram as obras iniciadas. A principal razão, segundo a Aneel, é a falta de licenças ambientais.

Entre estas grandes usinas em construção, destacam-se os problemas trabalhistas envolvendo Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira (RO), e Belo Monte no rio Xingu (PA).

Sobre os incidentes envolvendo as usinas hidrelétricas no Madeira, afirma o Cimi: “O estado de Rondônia vive o pior momento de sua história”.

Sobre Belo Monte, o bispo dom Erwin Kräutler, uma das vozes mais duras contra o projeto, afirma que a “verdade é que um rolo compressor está passando por cima de todos nós. A promessa que Lula pessoalmente me deu no dia 22 de julho de 2009, segurando-me no braço e afirmando ‘Não vou empurrar este projeto goela abaixo de quem quer que seja’ foi pura mentira. Falou assim para ‘acalmar’ o bispo e livrar-se deste incômodo religioso que recebeu em audiência. O governo empurra sim Belo Monte goela abaixo!”, diz ele, narrando a visita pastoral, realizada no último mês de março, às comunidades do interior de Porto de Moz.

Entristecido, com o que acontece no Xingu, diz o bispo: “Pena que os homens não se deixam mais encantar pela obra de Deus. Vedaram seus olhos e taparam o ouvido. Não enxergam mais as flores, nem ouvem mais o canto dos passarinhos. O sol e lua não nascem, nem se deitam mais! É a rotação do planeta Terra, pronto! Contemplar a natureza é perder tempo e dinheiro. Tudo é matéria prima para fazer negócios. Tudo vira mercadoria a ser explorada, ser comprada e vendida, exportada e consumida! Por isso os homens derrubam e queimam a floresta, represam e sacrificam os rios, assassinam os animais da mata, envenenam as plantas e os pássaros”.

Em outra parte da Amazônia, outra hidrelétrica causa apreensão, a usina projetada para o rio Teles Pires, na divisa entre o Mato Grosso e o Pará. Os índios caiabis, apiacás e mundurucus denunciam agressões.  Os índios vivem na área de impacto da usina e denunciam terem sido agredidos verbalmente por trabalhadores da obra. Eles dizem que tiveram motores dos seus barcos roubados.

Diante da situação de graves ameaças à segurança física, cultural e territorial dos indígenas impactados pela usina de Teles Pires, no Mato Grosso, mais de 50 organizações encaminharam a autoridades nacionais e internacionais um apelo para que seja garantida a medida de segurança, através de liminar, tomada pela Justiça Federal.

Assim como no caso de Belo Monte, os indígenas Munduruku, Kayabi e Apiaka não foram ouvidos antes do licenciamento da obra da usina, que ameaça seu território, patrimônio cultural e espiritual, e sua segurança alimentar.

Em meio a tantas usinas em construção ou projetadas para a Amazônia, mais uma foi anunciada: a construção dahidrelétrica de Santa Isabel no rio Araguaia, na divisa do Tocantins e do Pará. Estudada há mais de 40 anos, a usina de Santa Isabel desperta polêmica.

A usina está prevista para ser construída no local que esconde um dos sítios arqueológicos mais ricos do país – a chamada Ilha dos Martírios, onde já foram identificadas mais de 3 mil gravuras rupestres, deverá ficar completamente embaixo d’água, após o enchimento do reservatório da usina. No seu caminho também fica a região que serviu de palco para a Guerrilha do Araguaia, no fim da década de 1960. O lago poderá cobrir os corpos de guerrilheiros.

A obsessão do governo em construir usinas hidrelétricas na Amazônia já impôs a redução de 1.032 quilômetros quadrados da área de cinco unidades de conservação na floresta, abrindo caminho para duas novas usinas.

A crise do capitalismo é também a crise energética

crise financeira, que tem pautado os debates no mundo todo, parece estar longe de ser solucionada dentro do pragmatismo político dos governos tecnocratas, que lideram as principais economias do planeta e que, ainda, estão atrelados, em grande medida, com as mesmas matrizes energéticas do capitalismo industrial do século passado.

Não obstante, já não há tempo suficiente, diante das grandes mudanças climáticas, para práticas estreitas e pontuais, na resolução de problemas provenientes dos fortes abalos sofridos pela economia mundial, que insiste em ações predatórias ou pouco sustentáveis sobre os recursos naturais. Economistas preocupados, com os desafios postos para este século, apontam a necessidade de novas respostas no enfrentamento dessa crise sistêmica, ou seja, ela não pode ser resolvida somente com medidas superficiais.

Para o economista e cientista político alemão, Elmar Altvater, a crise financeira não pode ser entendida separada das crises energética e climática. Neste cenário de crise sistêmica, permeado pela escassez de energias não renováveis e pelo aprofundamento da crise ambiental, em grande escala, um dos passos importantes seria abandonar o imbróglio da fixação na ideia de crescimento econômico.

Segundo Altvater, “até o início da era industrial a humanidade não conhecia crescimento. Aumentos de produtividade eram insignificantes, sendo geralmente impedidos para evitar as concomitantes mudanças sociais. Crescimento, portanto, só existe desde inícios do século XIX”. Não se trata, portanto, de algo inexorável dentro da história da organização da economia no mundo. Se o crescimento depende do suprimento de energias, em se tratando de energia fóssil já se aponta para o fim de uma era.

Do ponto de vista filosófico, diz Jeremy Rifkin, a superação dos velhos padrões de organização econômica, diante das emergências do momento, passa pelo rompimento das prisões intelectuais ainda herdadas do século XVIII, ou seja, de uma “tradição iluminista, do pensamento de Locke e de Adam Smith: aquele que nos representa o homem como um ser racional, materialista, individualista, utilitarista”. Esses princípios não correspondem à nova relação que o ser humano precisará adotar diante dos recursos naturais.

O economista americano insiste que o ciclo de crescimento, que se pensava inesgotável, acabou, pois, “fontes de energia, como carvão, petróleo e urânio, são de elite, não estão disponíveis em qualquer lugar, demandam investimentos políticos, militares e de capital”. Caso se permaneça na perspectiva dos que insistem com os velhos padrões sociais, será “impossível que seis bilhões de pessoas enfrentem a escassez de recursos naturais” e se voltem para os interesses da biosfera.

Ao contrário das velhas matrizes energéticas, segundo Rifikin, “a energia renovável distributiva é encontrada em qualquer metro quadrado do mundo. Vem do sol, do vento, do calor debaixo do solo, do lixo, dos compostos orgânicos gerados pelos processos agrícolas, das marés e das ondas do mar”. Daí, a oportunidade de se gestar novos paradigmas.

Dos velhos aos novos paradigmas energéticos

Para uma possível mudança paradigmática, que substitua as velhas matrizes energéticas, é necessário um amplo esforço mundial para a efetivação de novas formas de produção e consumo energético. Segundo Altvater, o uso de fontes de energias fósseis se coaduna com um sistema de imposição autoritária, causador de conflitos mundiais e do efeito estufa, além de ameaçar o surgimento, nas próximas décadas, do fenômeno dos refugiados ambientais.

Por meio de uma análise histórica, da relação entre energia e comunicação, Jeremy Rifkin assinala as distintas transformações na relação da sociedade capitalista industrial com as matrizes energéticas. No século XIX, com o barateamento da impressão, o letramento dos trabalhadores forneceu-lhes “habilidades para lidar com as complexidades das demandas energéticas da época – o carvão, o vapor”. No século XX, foi a vez do telefone contribuir na gestão e controle da chamada segunda revolução industrial, marcada pela era do petróleo e a do automóvel. Para os dias atuais, com a Internet, urge uma nova revolução, ou seja, a terceira revolução industrial. “A internet aparece como tecnologia de comunicação revolucionária, porque é distributiva e colaborativa, enquanto a impressão, a TV, o rádio eram centralizadas”.

Rifkin entende essa passagem, da segunda para a terceira revolução industrial, dentro de cinco pilares: “as fontes renováveis, a transformação das casas em centros de produção de energias graças às microcentrais domésticas; o hidrogênio para armazenar a energia fornecida pelo sol e pelo vento durante os horários de picos; a criação das “smart grids”, que são a internet de energia; os carros elétricos”.

Por meio das potencialidades valorativas do mundo da internetRifkin aponta para o surgimento de novos bens sociais, como “o direito de acesso ao conhecimento, a relação paritária, a troca de informações e de música, em breve a troca de energia”. Ela será, portanto, uma revolução na maneira de se pensar a produção, distribuição e consumo de energia, podendo se configurar num “ataque ao sistema baseado no autoritarismo, no poder hierárquico, na centralização”. Na nova cultura dos jovens internautas, Rifkin vislumbra a possibilidade de se construir uma sociedade baseada na transparência, descentralização e livre acesso às redes.

Nas relações sociais da Internet, o sistema vertical é substituído por um sistema horizontal. Assim também, Rifkinpensa na superação dos grandes oligopólios energéticos por fontes descentralizadas, criando-se a chamada democracia energética. Para isto acontecer, é preciso que haja um salto cultural e tecnológico, enfrentando-se desafios como: “desenvolver a pesquisa, inovar os materiais, multiplicar minas renováveis, criar mão de obra especializada na construção de novos sistemas, em sua instalação, na edilícia bioclimática”.

Dentro deste contexto, da democracia energética, a abordagem do físico Heitor Scalmbrini aponta para novas atitudes e enfoques no enfrentamento da questão energética. Para o físico, “o envolvimento da comunidade na discussão, no planejamento e na gestão democrática dos recursos energéticos é chave para a sua soberania e para a sustentabilidade, e uma opção de resistência aos modelos centralizadores de recursos e poder que impõe aos povos altos custos econômicos, ambientais e sociais em troca do acesso a este bem de interesse comum que é a energia e que, portanto, deveria ser um direito de todo o cidadão, assim como direito a uma vida digna num ambiente saudável”.

Matrizes energéticas a serviço de todos

Pensar as matrizes energéticas, portanto, não pode ser resumido ao atendimento dos interesses das grandes corporações econômicas, dos projetos megalomaníacos, dos anseios de consumo, por exemplo, das novas classes emergentes em países como Brasil, China e Índia. Esse modelo, do qual os Estados Unidos não serve para ser seguido, deixou uma grande dívida ambiental para o mundo, ameaçando o futuro da própria espécie humana.

No entendimento do professor argentino Walter Pengue, diretor do Programa de Atualização em Economia Ecológica, “a humanidade deverá começar a pensar seriamente seu modelo de consumo. Nestes tempos, não tem triunfado nem o capitalismo nem o comunismo. O principal ganhador é o consumismo, a ameaça mais grave sobre os recursos naturais da terra”.

Na América Latina, por exemplo, o “desenvolvimento regional deveria ser a premissa dos governos”, ao invés de só pensarem “nos mercados de exportação, que são pão para hoje e muita fome para amanhã”. Destaque-se que em nosso continente, a matriz energética encontra-se na raiz de muitas tensões sociais envolvendo os governos progressistas e os de direita.

Nessa busca desenfreada por novas fontes de energia, segundo o pesquisador Marcelo Firpo Porto, há uma discriminação sofrida pelos “povos tradicionais, sejam eles indígenas, quilombolas, pescadores, geraizeiros e outros tantos, desprezados em seu modo de viver em estreita relação com os ecossistemas locais quando da instalação de empreendimentos como hidrelétricas, mineração ou expansão do agronegócio”.

Ainda, segundo Porto, “os movimentos por justiça ambiental vem se constituindo num importante exemplo de resistência, através de ações em redes que articulam lutas locais e globais, frente aos efeitos nefastos de um capitalismo globalizado, o qual utiliza sua crescente liberdade locacional de investimentos entre regiões e planetas para inibir a construção de parâmetros sociais, ambientais, sanitários e culturais direcionadores do desenvolvimento econômico e tecnológico”. A grande questão está em como e quantos estão interessados em virar esse jogo.

Romper com as concepções conservadoras

Chama a atenção no debate das matrizes energéticas a pouca diferenciação entre as posições da esquerda e da direita. A concepção marxista aproxima-se da concepção liberal. Ambas as concepções partem do pressuposto de que o crescimento econômico é indispensável e tudo, ou quase tudo, justifica essa lógica.

Nesse contexto, para a esquerda é tarefa do governo criar condições estruturais para o crescimento econômico e de responsabilidade estatal o investimento em mega-obras de infraestrutura e/ou exploração e financiamento das matrizes energéticas: petróleo, gás, hidrelétricas, nuclear, biocombustíveis; já para a direita esse protagonismo deve ser orientado pelo mercado.

Essa visão está ultrapassada, tendo em vista a crise climática e considerando-se, sobretudo, que estamos superando a sociedade industrial, contexto epocal em que viveram Adam Smith Marx. Agora, a nova revolução produtiva em curso, a revolução informacional oferece-nos outras alternativas, inclusive, em matéria de matriz energética como enfatiza Jeremy Rifkin, entre outros, destacados anteriormente.

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fonte: Ambiente Já!
 

Ameaça real e imediata. Uma situação factual do cotidiano deu início a um inédito projeto de educação ambiental e jornalismo. O anúncio, em 2008, pela imprensa de que os governos do Brasil e Argentina uniriam esforços para construir hidrelétricas no Rio Uruguai, o complexo de Garabi, despertou a curiosidade do professor e jornalista Carlos Dominguez. A possibilidade de a nova usina deixar o Salto do Yucumã e o Parque Estadual do Turvo submersos levou o professor e mais quatro alunos a conhecer a realidade e praticar a educação ambiental aplicada ao jornalismo.

Por mais de dois anos a equipe do Curso de Jornalismo do Centro de Educação Superior Norte – RS (Cesnors/UFSM) desenvolveu o projeto Diversidade Ambiental: Ribeirinhos do Rio Uruguai e moradores do entorno do Parque Estadual do Turvo. Neste período, utilizando técnicas jornalísticas foram realizadas gravações com os moradores do entorno do parque, no município de Derrubadas, sede do maior parque estadual gaúcho e último lar da onça pintada no Rio Grande do Sul. Além do registro em vídeo das histórias de vida e manifestações culturais típicas no contato com a terra e a mata foi trabalhado o discurso ambiental, em especial com a questão de viver próxima a uma área de preservação e as contradições que este fato gera.

O material recolhido resultou em um vídeo-documentário no estilo grande reportagem de telejornalismo com 30min mostrando a opinião de moradores e autoridades locais sobre o problema que a criação da usina teria para a população de Derrubadas. Este vídeo, num segundo momento, foi levado para a rede escolar municipal, onde alunos da primeira a oitava série assistiram a uma palestra, a reportagem, olharam fotografias e, ao final, realizaram um plantio de mudas nativas.

Além do trabalho de campo, no mesmo período de tempo, foi sendo recolhido material na mídia impressa e sites de veículos de comunicação que tratavam do tema Usina de Garabi. Ali estão sendo analisados os fluxos dos discursos ambientais por meio da análise do discurso.

Como resultado parcial do trabalho de extensão junto a população foi possível verificar, de acordo com os acadêmicos Clarissa Hermes, Letícia Sangaletti, Lucas Wirti e Mariana Correa, uma grande desinformação sobre a questão da barragem e o possível alagamento do Salto do Yucumã. Já no lado argentino, na localidade de El Soberbo, foi verificado junto aos depoimentos recolhidos a existências de mais informações sobre Garabi e os efeitos da usina sobre o ambiente local. É interessante destacar que tal fato se deve a somente a população argentina explorar turisticamente o potencial do Salto do Yucumã com, hotéis, pousadas e passeios de barco. No lado brasileiro não há exploração turística significativa.

Esta população, de aproximadamente 5 mil pessoas moram no entorno do parque. Geograficamente, o Rio Uruguai divide uma grande área binacional de preservação de floresta subdecidual de aproximadamente 80 mil hectares, sendo 17 mil hectares no Brasil e o restante na Argentina, no parque provincial de Moconã. Exatamente no centro desta área encontra-se o Salto do Yucumã (Salto del Moconã em espanhol), a maior queda d’água longitudinal do mundo, com 1,8 quilômetros de extensão. O local, além da inigualável beleza paisagística, o local é um dos últimos habitats de inúmeras espécies da fauna e flora, além de inquestionável biodiversidade.

Tudo isto está ameaçado de começar a não mais existir a partir de 2012, data prevista para começarem as obras do empreendimento binacional. Felizmente, já existe um movimento na sociedade civil pro-Yucumã. Acompanhe mais sobre o assunto no blog http://salveosaltodoyucuma.blogspot.br

 
 

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fonte: Instituto Cesalpina

Sete Quedas

Foi a maior cachoeira do mundo em volume de água, isso mesmo, foi! Isso porque em 13 de outubro de 1982 as comportas da recém criada Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas para a criação da represa de Itaipu inundando as quedas d’água. Para se ter uma ideia de sua grandeza basta compararmos a taxa média de fluxo anual dela com as Cataratas do Niágara (a maior em volume de água atualmente), a Sete Quedas tinha um fluxo de 13.300 m³/s enquanto as Cataratas do Niágara tem hoje 2.407 m³/s. Ela se localizava na fronteira entre o Brasil e o Paraguai fazia parte do Rio Paraná, hoje ela esta localizada no fundo do lago artificial de Itaipu.

Quem teve a oportunidade de assistir a esse fantástico espetáculo da natureza, traz a cena gravada para sempre na retina. Mas por mais imaginativo que seja, por melhor memória que possua, jamais conseguirá reproduzir a imagem majestosa, de bilhões de metros cúbicos de água despencando por segundo do alto de ribanceiras rochosas para o abismo, com um ruído ensurdecedor.

As quedas localizavam-se em um ponto onde o rio Paraná era forçado através de um estreito desfiladeiro. Na cabeça das quedas, o rio estreitava drasticamente a partir de uma largura de cerca de 380 m a 61 m. A altura total das quedas foi de aproximadamente 114 m, enquanto a maior das 19 grandes cachoeiras tinha uma queda de 40 m de altura. O rugido da água mergulhando podia ser ouvido a 20 quilômetros de distância.

(01) Salto 17; (02) Saltinho; (03) Salto 15; (04) Salto Arco-íris; (05) Salto 19; (06) Canalão; (07) Salto 17 e (08) Salto 14.

As Sete Quedas podiam ser consideradas uma das maiores maravilhas naturais, era uma verdadeira pintura de Deus. Era Constituída por 19 cachoeiras principais divididas em 7 grupos de quedas. A cidade de Guaíra foi construída em 1940 para aproveitar a potência turística da região, foi nessa época que o Brasil e o Mundo começaram a conhecer o Salto Guaíra (outro nome dado ao Salto de Sete Quedas).

O auge da visitação turística do local se deu nos anos 60, o Salto do Guaíra havia tomado uma grande atenção turística das Cataratas do Iguaçu, as duas quedas dividiam as atenções na época. Tudo corria muito bem, a novíssima cidade de Guaíba crescia rapidamente com o dinheiro vindo do turismo, a cidade alcançou uma população de 60 mil habitantes (hoje conta com apenas 30 mil).

As quedas eram um sucesso até que em 1979 foi decretado o fim do Salto das Sete Quedas. O governo havia decretado que a construção da Usina de Itaipu iria alagar o Salto Guaíra. Após o ocorrido, milhares de turistas se dirigiram às Sete Quedas, todos queriam vê-la antes que ela se fosse, todos queriam ver seus últimos dias.

Eram centenas de turistas todos os dias no Parque das Sete Quedas.

Eram enormes filas para dar o último adeus a grande obra da natureza

Sua morte foi causada pela ambição política da época. As negociações para a construção da Usina de Itaipu se deram em 1960, entre o Brasil e o Paraguai. Após seis anos de negociações foi fechado um tratado para a construção da Hidrelétrica. A potência hídrica do rio foi o principal atrativo para a construção.

Em 13 de outubro de 1982, o fechamento das comportas do Canal de Desvio de Itaipu começou a sepultar, com as águas barrentas do lago artificial, um dos maiores espetáculos da face da Terra: as Sete Quedas do Rio Paraná. A inundação durou apenas 13 dias, durante este período vários ribeirinhos voltaram até a beira do rio para se despedirem das Sete Quedas. A cena foi muito triste como contam relatos de pessoas que viveram esta tragédia de perto.

As águas da nova represa foi levando tudo o que via pela frente

Antes e durante o a inundação das quedas foram feitas varias manifestações, mas não surtiram efeito. O governo se mostrava sem opção, procurando demonstrar a riqueza que a Hidrelétrica traria ao país. Sem contar que eles também não procuraram dar muita satisfação à população. Quando uma vez questionado por que não podia fazer nada pelas quedas o Presidente brasileiro da época respondeu: “Se eu salvar Sete Quedas, o que vou fazer com aquela tremenda construção de Itaipu?”

Até o presidente João Figueiredo foi dar o último adeus ao Salto Guaíra

O que mais nos intriga hoje em dia é a falta de respeito por parte do governo com a natureza, como esses governantes não se sensibilizaram com a beleza das Quedas? Como eles foram tão frios a ponto de matar uma das mais belas obras divinas já presenciadas pelos homens? Como puderam se deixar levar pela ganância?

Parte inferior do "Canalão"

O "Canalão" era um espetáculo de som e imagem

Corredeiras abaixo das quedas

Salto Arco-Íris

Hoje já não se houve falar nela, a própria Usina de Itaipu não se deu nem o trabalho de lhe fazer uma homenagem. O governo procurou silenciar a covardia para a sua prosperidade, ao contrario, a maior Hidrelétrica do mundo não seria tão glorificada como é hoje. Mal sabemos nós os sacrifícios que a natureza teve que sofrer para nos dar mais um pouco de suas forças.

Na foto podemos ver acima como eram as Sete Quedas e o que
restou dela após a inundação, pra falar a verdade não sobrou nada.

Em 1982, o poeta Carlos Drummond de Andrade expressa sua inconformidade com a destruição do Salto de Sete Quedas, um patrimônio natural dos brasileiros e da humanidade:

  Sete quedas por mim passaram,e todas sete se esvaíram.

Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele a memória dos índios, pulverizada, já não desperta o mínimo arrepio.

Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes, aos apagados fogos de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se os sete fantasmas das águas assassinadas por mão do homem, dono do planeta. Aqui outrora retumbaram vozes da natureza imaginosa, fértil em teatrais encenações de sonhos aos homens ofertadas sem contrato.

Uma beleza-em-si, fantástico desenho corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno mostrava-se, despia-se, doava-se em livre coito à humana vista extasiada. Toda a arquitetura, toda a engenharia de remotos egípcios e assírios em vão ousaria criar tal monumento.

E desfaz-se por ingrata intervenção de tecnocratas. Aqui sete visões, sete esculturas de líquido perfil dissolvem-se entre cálculos computadorizados de um país que vai deixando de ser humano para tornar-se empresa gélida, mais nada.

Faz-se do movimento uma represa, da agitação faz-se um silêncio empresarial, de hidrelétrico projeto. Vamos oferecer todo o conforto que luz e força tarifadas geram à custa de outro bem que não tem preço nem resgate, empobrecendo a vida na feroz ilusão de enriquecê-la.

Sete boiadas de água, sete touros brancos, de bilhões de touros brancos integrados, afundam-se em lagoa, e no vazio que forma alguma ocupará, que resta senão da natureza a dor sem gesto, a calada censura e a maldição que o tempo irá trazendo?

Vinde povos estranhos, vinde irmãos brasileiros de todos os semblantes, vinde ver e guardar não mais a obra de arte natural hoje cartão-postal a cores, melancólico, mas seu espectro ainda rorejante de irisadas pérolas de espuma e raiva, passando, circunvoando, entre pontes pênseis destruídas e o inútil pranto das coisas, sem acordar nenhum remorso, nenhuma culpa ardente e confessada.

(“Assumimos a responsabilidade! Estamos construindo o Brasil grande!”)

E patati patati patatá… Sete quedas por nós passaram, e não soubemos, ah, não soubemos amá-las, e todas sete foram mortas, e todas sete somem no ar, sete fantasmas, sete crimes dos vivos golpeando a vida que nunca mais renascerá.   “

Carlos Drummond de Andrade 

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Parte 1:

Parte 2:

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“Infelizmente, os atingidos são vistos como pessoas que devem ser retiradas por conta da construção da barragem. Além disso, não é feito um acompanhamento dessas famílias após o reassentamento”, afirma o biólogo. 

por Instituto Humanitas Unisinos

Parte do projeto hidrelétrico do período militar, a hidrelétrica de Barra Grande foi construída entre 2001 e 2005 nos municípios de Anita Garibaldi Pinhal da Serra, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com a promessa de trazer desenvolvimento para os municípios da região sul do estado, a hidrelétrica transformou completamente o modo de vida das famílias, especialmente dos agricultores.

Seis anos após a conclusão das obras, o biólogo Eduardo Luis Ruppenthal visitou as famílias da região e averiguou que, ao mudarem para o reassentamento rural coletivo, os agricultores deixaram de ter acesso a recursos naturais e tiveram de se adaptar a outra forma de agricultura para sobreviverem. “Eles são obrigados a trocar a cultura de subsistência pela cultura mecanizada, quase empresarial, porque nos reassentamentos não é possível manter a antiga forma de roça. (…) A agricultura passa a ter outra lógica e isso faz com que esses agricultores fiquem endividados. Para pagarem as dívidas, eles voltam sua produção para o mercado. Inclusive, algumas famílias se especializam tanto para o mercado que passam a comprar muitos dos alimentos que consomem”, relata.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone para a IHU On-LineRuppenthal esclarece que a energia gerada porBarra Grande atende especialmente aos interesses das empresas mineradoras que exportam minério in natura para o exterior. “Toda essa energia é destinada para as unidades mineradoras, principalmente as que estão em Minas Gerais e Poço de Caldas”, informa.

Eduardo Luis Ruppenthal é biólogo e mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line  Em que contexto histórico foi construída a barragem Barra Grande, no Rio Grande do Sul? Quais foram os argumentos que justificaram a construção desse empreendimento?

Eduardo Luis Ruppenthal  Barra Grande, assim como as demais barragens construídas no Brasil, é um projeto da ditadura militar. Todas as barragens foram planejadas naquele contexto em que o regime militar tinha um planejamento hidrelétrico para o Brasil no sentido de aumentar a produção de energia e nada mais. Questões ambientais e sociais não foram colocadas na pauta. Barra Grande foi projetada em 1980. Porém, por causa da crise econômica ocorrida na época, a hidrelétrica não foi construída naquele momento. O projeto foi retomado em 1995, no primeiro governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a construção da hidrelétrica começou, de fato, em 2001, no final de seu segundo mandato.

É interessante perceber nesse processo que, no anos 1980 e 1990, o estado era responsável pela construção da barragem através da Eletrosul – a empresa do sul do país que responde à Eletrobras em nível nacional. No final dos anos 1990, o sistema elétrico do Brasil foi privatizado, e isso fez com que as empresas privadas recebessem a concessão para construir as barragens e administrá-las. Portanto, Barra Grande foi construída por um consórcio constituído pelas empresas AlcoaCamargo Corrêa, e DME Energia, e a hidrelétrica é administrada pela Baesa  Energética Barra Grande S/A. A hidrelétrica foi construída entre 2001 e 2005.

Nesses quatro anos, Barra Grande foi um caso emblemático, porque trouxe à tona a questão do licenciamento ambiental no Brasil e porque as investigações demonstraram que houve uma fraude no Relatório de Impacto Ambiental – Rima da hidrelétrica. A fraude consistiu na omissão da existência de florestas na região. No estudo de impacto ambiental, as florestas eram definidas como milhares de hectares de capoeira, quando, na verdade, existia uma mata virgem de araucárias. Essa fraude só foi descoberta em 2004, quando a Baesa pediu autorização do Ibamapara cortar a vegetação nativa. A empresa entrou em contradição. Se, de acordo com o relatório, havia apenas capoeira na região, como seria possível cortar a vegetação? Quando o Ibama verificou a área, percebeu que toda a região alagada era constituída por uma mata primária.

IHU On-Line  Na década de 1980 havia preocupação com o impacto social e ambiental gerado pela construção das barragens? Algo mudou no conceito ambiental desde que a barragem foi projetada até o ano em que Barra Grande foi construída?

Eduardo Luis Ruppenthal – Logo após a redemocratização, iniciou-se no Brasil um processo de discussão sobre as questões ambientais e sociais geradas pelas hidrelétricas, graças à mobilização das famílias atingidas. Na década de 1980, em função do desejo de redemocratização, havia bastante efervescência política, e o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB se constitui ao reivindicar os direitos dos atingidos pela hidrelétrica de Machadinho, que está localizada entre Piratuba-SC e Maximiliano de Almeida-RS.

Relatório de Impacto Ambiental – Rima surgiu com a política ambiental de meio ambiente em 1981, e com as primeiras resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente  Conama. Ele advertia que as grandes obras e empreendimentos, não só as hidrelétricas, mas também estradas e termoelétricas, precisavam de um estudo de impacto ambiental.

Mobilizações 

Em relação às questões sociais, era difícil contabilizar o percentual de pessoas atingidas porque, para as empresas, no início dos anos 1980, eram considerados atingidos apenas os proprietários de terras. Só que naquela região da bacia do Uruguai existiam, e ainda existem, muitos agricultores ribeirinhos que não são proprietários de terras e que foram atingidos. Como, primeiramente, eles não foram reconhecidos pelo setor elétrico, organizaram-se para reivindicar seus direitos. Assim, o conceito de “atingido” foi mudando conforme aumentaram as mobilizações.

De certa forma, hoje o setor elétrico tenta incorporar quem é atingido e, a partir dos anos 1990, passou a reconhecer como atingido todas as pessoas que tiveram suas áreas alagadas e as que foram atingidas por causa do alagamento das terras. No caso de Barra Grande, em 2001, somente 800 famílias foram reconhecidas. No final da construção da hidrelétrica, em 2005, em função das mobilizações sociais, 1.516 famílias foram consideradas atingidas.

IHU On-Line  O que as famílias relatam sobre a construção da barragem e sobre os impactos ambientais, sociais e econômicos que elas sofreram?

Eduardo Luis Ruppenthal – Na minha dissertação, procurei observar qual era a situação das famílias seis anos após a construção da hidrelétrica de Barra Grande. Antes de a construção ser iniciada, as famílias já tinham uma sensação de incerteza em relação ao futuro. Isso porque aquelas as quais seriam reconhecidas e indenizadas não sabiam aonde iriam morar: não sabiam se ficariam no meio rural, na cidade; não tinham a informação se elas voltariam para os seus municípios de origem ou se migrariam para outro município.

As famílias também relataram os problemas gerados em função da construção da barragem, pois, como se percebe no Brasil inteiro, milhares de trabalhadores se instalam nos canteiros de obras, modificando o cotidiano da região. Dos nove municípios atingidos pela hidrelétrica de Barra GrandePinhal da Serra, do lado do Rio Grande do Sul, eAnita Garibaldi, do lado catarinense foram os que sofreram maior impacto. Esses municípios têm historicamente um déficit enorme em relação aos serviços públicos como saúde, educação, segurança, infraestrutura de estradas. A vinda de milhares de trabalhadores e a instalação de maquinários influenciaram na rotina da cidade e os serviços sociais ficaram sobrecarregados.

Os impactos sociais após a construção

Com a construção das hidrelétricas, promete-se o desenvolvimento para a região. Por isso, de um lado, a população fica ansiosa e os representantes políticos e econômicos também. É uma promessa bem vendida de que, com as hidrelétricas, as cidades terão mudanças significativas.

Durante a construção de Barra Grande, havia mais de dois mil trabalhadores e, atualmente, apenas 24 deles são necessários para manter a hidrelétrica funcionando. O que se viu em Barra Grande é que muitas pessoas que antes trabalhavam como agricultores ficaram desempregadas com o término da obra. Então existe um êxodo não só rural, mas também urbano, porque muitos habitantes mudaram de uma cidade para outra maior.

IHU On-Line  Como ocorreu o processo de reterritorialização e reassentamento das famílias rurais atingidas pela construção da barragem Barra Grande? Quais foram as consequências vividas pelos diferentes grupos socioculturais?

Eduardo Luis Ruppenthal – As pessoas que moravam na região plantavam na roça e não usavam fertilizantes. A terra era muito fértil e eles plantavam milho e feijão. Inclusive, essa era a região que mais cultivava feijão no Rio Grande do Sul. Essas famílias também tinham acesso a recursos naturais, como água  pois todas as residências tinham poço artesiano , lenha para aquecer suas residências, já que esta é uma das regiões mais frias do Brasil. Os agricultores também cultivavam pinhão, frutas nativas e tinham acesso ao rio, onde pescavam e lavavam roupas.

Mudanças 

Ao mudarem para um reassentamento rural coletivo, distante do vale, eles deixaram de ter acesso aos recursos que mencionei e passaram a pagar por diversos serviços. Por exemplo, a água no reassentamento passa a ser encanada e há cobrança de uma taxa mensal. Antes, eles tinham acesso à lenha no seu próprio quintal, mas no reassentamento, a lenha não está disponível. Então, muitas famílias são obrigadas a comprá-la. Essas famílias tinham o hábito de ascender o fogão à lenha para aquecer a casa, para esquentar a água do chimarrão e para cozinhar. Nos reassentamentos, esse modo de vida não é possível. Culturalmente, essas mudanças são impactantes: eles são obrigados a trocar a cultura de subsistência pela cultura mecanizada, quase empresarial, porque nos reassentamentos não é possível manter a antiga forma de roça, pois ela passa a ser mecanizada com a utilização de tratores, por exemplo. Eles são obrigados a utilizar agrotóxicos e a comprar sementes  muitos agricultores sequer sabiam que precisariam comprar sementes. A agricultura passa a ter outra lógica, e isso faz com que esses agricultores fiquem endividados. Para pagarem as dívidas, eles voltam sua produção para o mercado. Inclusive, algumas famílias se especializam tanto para o mercado que passam a comprar muitos dos alimentos que consomem.

Outro problema dos reassentamentos é o fato de o lote ser limitado; eles têm em torno de 14 a 20 hectares. Muitas vezes, as terras desses lotes não são tão férteis, e, portanto, nem todo lote pode ser aproveitado. O feijão, que era produzido em toda a região, foi deixado de lado, pois outros cultivos são priorizados, tais como a soja e o milho.

A paisagem local também foi atingida na medida em que as florestas e as árvores, muito presentes antes da construção da hidrelétrica, foram destruídas. Como a região está desmatada, o frio é muito mais intenso. Portanto, há uma mudança significativa na temperatura. As pessoas que moram proximamente ao lago dizem que a cerração é mais intensa hoje, o que os impede de trabalhar na roça.

IHU On-Line – Os municípios se beneficiaram de alguma maneira com a barragem Barra Grande?

Eduardo Luis Ruppenthal – Todo mês a empresa que administra Barra Grande tem de pagar royalties para os municípios. O valor dos royalties é calculado em cima da energia produzida. Então, em meses de seca, a produção é baixa ou não se produz quase nada. Nesse caso, diminui também a quantidade de royalties pagos. Entrevistei os prefeitos, secretários, vereadores e lideranças políticas da região para saber como avaliam o retorno econômico da barragem. Alguns dizem que ela trouxe benefícios, mas outros são mais reticentes. No caso de Anita Garibaldi-SC, por exemplo, antes da construção da barragem, o município tinha mais de 10 mil habitantes e recebia o fundo federal de participação dos municípios, distribuído pelo governo. Após a construção da barragem, a pequena cidade diminuiu o número de habitantes e passou a receber menos dinheiro do governo federal.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Eduardo Luis Ruppenthal – Diversos atores sociais fizeram um Pacto de Ajustamento de Conduta solicitando que o Estado brasileiro comprasse uma área de seis mil hectares – mesma extensão da área alagada para construir Barra Grande – a fim de doar às populações que foram atingidas pela hidrelétrica. A proposta é de que essa área estivesse acima de Barra Grande, no rio Pelotas. Entretanto, o governo não quer doar essa área porque, nesse espaço, querem construir a hidrelétrica de Paiquerê. O mesmo consórcio que construiu Barra Grande tem interesse em construir Paiquerê. Por causa da pressão do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, o governo não quer destinar dinheiro para comprar essa área.

Conclusões

Uma das conclusões do meu trabalho é de que, infelizmente, os atingidos são vistos como pessoas que devem ser retiradas por conta da construção da barragem. Além disso, não é feito um acompanhamento dessas famílias após o reassentamento. Essa situação se mantém no Brasil todo.

Além disso, a energia oriunda dessas hidrelétricas não é utilizada pela população. Com a privatização do setor elétrico, as empresas como a Alcoa – que é uma das maiores mineradoras do mundo – conseguem produzir a sua energia. Atualmente, apenas a Alcoa usa a energia de quatro hidrelétricas do Brasil: Barra GrandeMachadinho,Estreito Serra do Facão, e quer construir a usina de Paiquerê. Toda essa energia é destinada para as unidades mineradoras, principalmente as que estão em Minas Gerais. A empresa diz que quer ser autossustentável em energia até 2014 e tem um discurso de que a energia gerada pelas hidrelétricas será utilizada em beneficio do povo brasileiro. Ocorre que a Alcoa é caracterizada como eletrointensiva e, para desenvolver a mineração, precisa de muita energia. O fato é que ela e outras empresas usam a energia para exportar commodities, principalmente alumínio, que é exportado in natura para a Europa e para a China.

Barra Grande 
faz parte desse contexto de produção de energia, que é usada para exportar commodities. É importante saber que pretendem construir Paiquerê no rio Pelotas, e que se essa barragem for construída, o Rio Uruguai será um rio morto, porque será transformado em um lago.

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