Feeds:
Posts
Comentários

Archive for março \18\UTC 2013

Barragens também prejudicariam vida no rio Uruguai

por Correio do Povo

Brasil e Argentina se articulam para a construção do projeto binacional Complexo Garabi

Salto do Yucumã, o Grande Roncador

A construção de hidrelétricas ao longo do rio Uruguai está mudando a vida às margens do manancial. Segundo o professor do departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Paulo Brack, um estudo da Unipampa levanta a impossibilidade de o rio sustentar, do ponto de vista ambiental, todas as hidrelétricas planejadas. Além disso, ele contesta a capacidade de geração de energia do Uruguai. “O caudal de água para geração já não é tanto assim. Nestes verões, pelo segundo ano, as hidrelétricas de Foz de Chapecó, Itá, Machadinho e Barra Grande ficaram com seus reservatórios em níveis críticos, durante várias semanas, sem gerar um MW de energia”, argumentou.

O pescador profissional Walmor Machado Pereira, que reside há 25 anos na localidade de Remanso, no município de Barra do Guarita, afirma que o rio mudou muito de uns 10 anos para cá e que não dá para pescar de forma tranquila. “De repente a água sobe muito, mesmo que não tenha chovido, e leva embora as redes.” Segundo ele, as margens do rio estão desaparecendo. “Isso aqui é minha vida, mas a situação mudou muito e os moradores em geral estão descontentes.” Outros pescadores que conversaram com a reportagem do Correio do Povo, mas não quiseram se identificar, mostram grande revolta com a situação. “Onde estão as autoridades que nada fazem para reverter essa situação?”, indaga um morador que há 40 anos vive na margem do Uruguai.

Outra questão levantada pela população e autoridades da região é a possibilidade de prejuízos ao Salto do Yucumã, localizado no Parque do Turvo, em Derrubadas. Considerado o maior salto d’água longitudinal do mundo, a queda tem 1,8 quilômetro. Em maio de 2011, em audiência pública em Santo Ângelo, o superintendente de Geração da Eletrobras, Sidney Lago, explicou o histórico do projeto e o Estudo do Inventário do rio Uruguai no Trecho Compartilhado com Argentina e Brasil. Na ocasião, ele garantiu que o Salto de Yucumã será preservado. Porém, representantes da região afirmam que a construção de hidrelétricas já afeta o Parque do Turvo e a queda d’água. “A construção de megaempreendimentos hidrelétricos no rio Uruguai está afetando o meio ambiente e coloca em risco a beleza e a vida do Salto de Yucumã”, diz o presidente do Consórcio Municipal de Turismo Rota do Yucumã e também prefeito de Derrubadas, Almir Bagega. Ele afirma que já há mudança significativa no rio, a partir do funcionamento das hidrelétricas instaladas. O prefeito disse que ocorre a retenção de água nos reservatórios das usinas e, quando menos se espera, as comportas são abertas, o que alteraria a vida do rio, prejudicando o meio ambiente e a sobrevivência dos pescadores.

Segundo o prefeito, neste período de pouca chuva, os turistas chegam para apreciar a queda de água. “No entanto, percebemos que o nível do rio fica elevado, em razão da abertura sem controle das comportas.” Bagega ressalta que os 33 prefeitos de municípios que fazem parte do Consórcio Rota do Yucumã são a favor da geração de energia, mas não admitem destruir matas e rios de forma indiscriminada. “Parece que o poder econômico fala mais alto e não se leva em conta o meio ambiente e os milhares de moradores que vivem nas margens do rio, locais onde construíram sua história.”

Conforme o professor Brack, que também é membro do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá), com a hidrelétrica Panambi prevê-se a perda de mais de 1,7 mil hectares de floresta do Parque Estadual do Turvo. “No que toca ao rio, o desastre seria talvez maior ainda, pois o ecossistema lótico (de cursos d’água) com corredeiras — neste caso com ênfase ao Salto do Yucumã — sumiria, levando para sempre a presença das reduzidas populações remanescentes de peixes como dourado, surubim e grumatã, os quais necessitam das corredeiras para sua piracema.” Brack explica que as águas semi-paradas também são propícias a invasões biológicas (mexilhão-dourado, bagre-africano, etc) e disseminação de doenças por mosquitos e caracóis (febre-amarela, leishmaniose, doença-de-Chagas, etc). A Secretaria Estadual do Meio Ambiente e a Casa Civil do Estado não se manifestaram até o fechamento desta edição sobre a posição do governo do Estado em relação às hidrelétricas e barragens.

Movimento dos Atingidos por Barragens teme impactos de usina

Uma representação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) atua no município de Porto Mauá buscando conscientizar a população sobre as consequências da construção das barragens. Os dois maiores envolvidos são a empresária Loni Elisa Dei Ricardi e o músico Alir Valentim da Rocha, que realizam cursos de formação de lideranças para sensibilizar os moradores das localidades atingidas.

Eles temem que grandes festas regionais como a de Nossa Senhora dos Navegantes, o Festival do Cascudo e a Expomauá sejam descaracterizadas com um novo cenário construído após a instalação da hidrelétrica Panambi, no rio Uruguai. Na avaliação deles, os balneários que abrigam centenas de turistas no verão e a Trilha Ecológica de Três Bocas — que existe desde 1998 e já foi premiada em nível nacional como projeto turístico — correriam risco de desaparecer.

O Movimento dos Atingidos por Barragens em Porto Mauá questiona a legislação, pois, de acordo com o movimento, a mesma lei que proíbe a pesca dos habitantes do local, a plantação de lavouras e a construção de residências em área de preservação permanente permite a destruição destas áreas e a morte de dezenas de espécies de animais e plantas com um único projeto.

Loni entende que não se pode expulsar as pessoas de suas moradias e terras pelo “chamado desenvolvimento”. Ela destaca que a construção da barragem Panambi deverá trazer também impactos ao comércio, ao clima e à saúde da população local. “Tem moradores que já sofrem com depressão, pois não sabem o que será do futuro de suas residências”, conta a empresária.

Nascida em Porto Mauá, Loni possui uma agência de turismo na cidade. No local, distribui fôlderes e informativos contra as barragens, alguns produzidos pelo MAB Brasil. “Tem pessoas que dizem que minha empresa teria ainda mais sucesso com a barragem, intensificando o turismo. Porém, minha preocupação é com a natureza, com o povo de Porto Mauá e a nossa história”, ressalta a moradora.

Com informações dos repórteres Agostinho Piovesan, Felipe Dorneles e Maria Dal Canton Piovesan

Read Full Post »

Complexo hidrelétrico Garabi-Panambi (~73mil ha) pode alagar uma área maior que a hidrelétrica de Belo Monte (~51mil ha) no noroeste do RS! Se forem construídas, 63mil ha (86% da área) de vegetação nativa podem desaparecer!

por Correio do Povo

Devem começar neste mês os estudos de viabilidade para a construção das usinas hidrelétricas Garabi e Panambi, no Noroeste do Estado. As estruturas, que fazem parte de um projeto entre Brasil e Argentina, devem ter capacidade instalada somada de 2.200 MW e desalojar 12,6 mil pessoas.

Se implantadas, as barragens no rio Uruguai alagarão uma área de 73,2 mil hectares. Segundo o Estudo de Inventário do Rio Uruguai no Trecho Compartilhado entre Argentina e Brasil, realizado pelas empresas estatais Ebisa (Argentina) e Eletrobras (Brasil), o barramento de Garabi ficaria no km 863 do rio Uruguai, a cerca de 6 quilômetros a jusante (rio abaixo) dos municípios de Garruchos, que têm mesmo nome tanto no Brasil quanto na Argentina.

A estrutura alagaria as localidades de Garruchos e também Azara, San Javier e Itacaruaré, na Argentina, e Porto Xavier, no Brasil. Estima-se que a população urbana a ser desalojada é de cerca de 2,1 mil pessoas e a rural, 3,8 mil. Além de afetar vias pavimentadas, prejudicará a atividade pecuária, o cultivo de erva-mate, soja, arroz e áreas florestadas. Já a barragem de Panambi ficaria no km 1.016 do rio Uruguai, a aproximadamente 10 quilômetros a montante (rio acima) dos municípios de Panambi (Argentina) e Porto Vera Cruz (Brasil). A usina inundará as cidades de Alba Posse e Porto Mauá. Cerca de 1,3 mil pessoas devem ser atingidas na área urbana e 5,4 mil, na rural.

Os contratos para os estudos e projetos de engenharia, estudos ambientais e plano de comunicação foram assinados em dezembro por representantes do consórcio formado pelas empresas Consular, Engevix, Grupo Consultor Mesopotamico, Iatasa, Intertechne e Latinoconsult.

Uma Porto Alegre e meia alagada

Os técnicos da Ebisa e da Eletrobras estimam que as novas usinas tragam custo ambiental direto de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, conforme informado no Estudo de Inventário do Rio Uruguai no Trecho Compartilhado entre Argentina e Brasil.  As barragens alagarão 73,2 mil hectares, área equivalente a cerca de uma Porto Alegre e meia.

Na Garabi, da vegetação nativa serão afetados 44 mil hectares (ha), incluindo o alagamento de áreas do Parque Ruta Costera do Rio Uruguay, da Reserva Privada Santa Rosa, na Argentina, além das Áreas de Importancia para la Conservación de las Aves C. Martires Barra S. María, Azara e Barra Concepción.  Do lado brasileiro serão inundados trechos das margens dos rios Uruguai e Ijuí. Já a barragem Panambi alagará 19 mil ha de vegetação nativa. No caso das Unidades de Conservação, o impacto sobre o Parque Estadual do Turvo será de 60 ha; e sobre a Reserva de Biosfera Yabotí (Argentina), 34 ha.

Outros impactos decorrentes da transformação permanente dos ambientes e como eles afetarão os ecossistemas das unidades de conservação ainda requerem estudos específicos. Conforme o professor do departamento de Botânica da Ufrgs Paulo Brack, milhares de hectares de florestas, campos nativos e áreas agrícolas serão destruídos. “Trata-se do principal enclave da Mata Atlântica de interior, com elementos originários também do Sul da Amazônia”, destaca, lembrando que a área abarca mais de 1,5 mil espécies.

Com informações dos repórteres Agostinho Piovesan, Felipe Dorneles e Maria Dal Canton Piovesan

Read Full Post »